segunda-feira, 19 de junho de 2017

Escritora por um dia

Vivemos numa economia de informação

Steve Jobs







A informação pode nunca ser demasiada, mas ultimamente é excessiva. Cansa.
É repetitiva, explorada e doentia.

Quem não gosta de andar bem informado? Descobri o Delito de Opinião (e de Informação) por acaso quando há cerca de 4 anos fazia pesquisa online para um post.
Li  (e continuo a ler) tudo, sem sequer me atrever a escrever.
Comentar foi uma aventura que não imaginei possível. Daí à ser leitura obrigatória foi um pulinho.
Hoje deram-me a honra de ser a convidada do dia para escrever um texto meu !
Os Senhores e Senhoras das palavras !

Muito me honrou e muito lhes agradeço.
É fenomenal a sensação de ser escritora por um dia !

O Blog será sempre uma referência incontornável para mim todas as vezes que precisar ver a realidade através todas as sombras de todas as cores e sem acordo ortográfico.

Obrigada!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Ogre


"A estupidez coloca-se na primeira fila para ser vista; a inteligência coloca-se na rectaguarda para ver."


Bertrand Russel 







Conheci-o há um ror de anos, naqueles tempos em que o verbo era trabalhar.

Rufião e inculto, sabia tudo o que a universidade da vida lhe tinha ensinado e pretendia usar toda essa arte com a finura e a astúcia que compensavam largamente o que lhe faltara em educação. Um verdadeiro doutor em tudologia, como se diz nos tempos que correm, pós graduado em tudo e doutorado em nada.

Filho de um mastim do antigo regime que utilizava os seus privilégios conjugais como saco de box, cedo se viu entregue aos descuidos paternos, após ausência definitiva da   progenitora em parte incerta.

Cresceu na rua. Fez-se homem. Poderia ter-se feito um bom homem e uma excelente pessoa  se quisesse. Não quis.

Não olhou a meios para atingir os fins, insinuando-se em enredos e farsas sempre com o cuidado de apresentar a fachada  tão em voga do bom rapaz trabalhador. Nunca se coibindo de espezinhar inimigos ou  amigos,  conseguiu ludibriar os mais incautos cuja apetência à função era verde e bebiam sofregamente daquela fonte salobra de água filtrada.

Perdia-se por saias, mas com aquela filosofia que os seguidores do profeta tão bem abraçam, porque fêmea é para usar e cuspir em cima. Completamente abjecto e desprovido de senso ou sensibilidade, fez  correr rios desesperados de lágrimas vexadas.

Conseguiu ser cardeal sem ponto nem ponta, numa congregação de estropiados incultos e sem qualquer autoestima , que se vendiam a troco de favores menores, humilhando-os sempre que a ocasião lhe era propícia, para poder marcar terreno e animar as hostes com farto gargalhar.

Atingiu o endeusamento que ambicionara e por muito tempo foi a eminência parda de um regime facilitista. Talvez por tempo demais. Não havia nada que quisesse que não lhe fosse permitido ter ou fazer.

Um dia, as sortes foram-lhe desfavoráveis. Finalmente. O truque barato encontrou  ouvidos moucos e cabeças com mais do que três neurónios uns patamares acima. Caiu. Tombou. Ficou a nu.

Já não eram suas as ideias que durante tanto tempo roubou aos "loucos perigosos" que as formulavam e que meses depois as viam travestidas de roupagens, a serem apelidadas de geniais e fruto da única cabeça com valor pensante que era possível encontrar por aqueles lados.
Já não eram seus os comunicados  escritos criteriosos e racionais, remodelados a partir de tiradas ricas em chavões´quase futebolísticos de gramática e ortografia duvidosas,  onde se limitava a assinar pomposamente o nome.

Muito a custo conseguiu não ser excluído dos destinos da arraia miúda, mas a vida e as quedas nada lhe ensinaram. Continua a bajular os fortes e a rebaixar os fracos e os não tão fracos, espertalhões da mesma laia que também aprenderam que a lisonja é recompensada e que se reconhecem como aves da mesma espécie.

Continua a professar os credos de que é profeta, onde o hedonismo lascivo pontua e tenta recolher o máximo de dividendos que pode de uma fonte que para ele só goteja.

Poderia compará-lo ao DAESH na forma, na acção e no conteúdo,  não fora nunca reivindicar os atentados contra a ética,  moral, as boas práticas e os bons costumes que perpetra quase numa base diária e dos quais é sempre, mas sempre isento de toda e qualquer responsabilidade.








segunda-feira, 12 de junho de 2017

Upa lá !


"Ó meu rico Santo António,
 Tu és um demónio,
 Tu és um judeu,
 Ó santinho da pedincha,
 Foste uma pechincha
 Que nos apareceu!
 Até mesmo os pobrezinhos
 Dão cinco reizinhos P"ra te dar a ti!
 És um santo milagroso,
 De pau carunchoso,
 Como eu nunca vi!
 Tive uma devota,
 Que era já velhota,
 E veio até mim rezar:
 Ó Santo Antoninho, Dá-me um rapazinho,
 Que eu também quero casar."

        ( Trocadilho Popular muito em voga, que a Avó Júlia cantava)






Vá, agora seguras assim e enrolas com linha à volta, dizia a minha Madrinha, sentada comigo no pial de pedra da entrada, ambas entretidas a dispor em arranjos coloridos, espécies enviesadas de flores de papel que enfeitavam arcos de arames ferrugentos forrados a corda de amarrar serapilheiras e papel de seda. Eu queria era brincar com os "harmónios" que a Madrinha chamava balões não sei porquê, pois até tinham lá dentro uma cruzeta de madeira com um prego, onde espetavam uma vela, mas não podia ser, porque não chegavam para pendurar nos arcos todos.
A ti' Antónia da Fava Rica andava com a Almerinda aos gavetos na quinta depois de saltado o muro, para os amontoarem bem no meio do Largo do Carvoeiro, onde mais tarde se acenderia a fogueira.

A fogueira.

O fogo  tem o fascínio do ouro e a beleza de uma besta indomável e irrequieta que brilha no escuro com fulgências e tonalidades mais rebuscadas do que a mais louca das fantasias.
Era absolutamente fantástico ficar virada para o muro da quinta, de costas para a fogueira. As sombras agigantavam-se e moviam-se loucas e sinuosas, eminências pardas de um reino negro e luzente que crescia e se agitava a cada crepitar da acha, criando miragens de fumo e calor ondulante que cheirava a resina e a verão.

O avô chegava-me à beira do fogaréu e upa! Já está ! E eu ria feliz e corada , seguindo com o olhar as faúlhas que se libertavam e que eu acreditava seguirem directamente para o céu, para se juntarem aos outros pontinhos brilhantes.

Havia concertina e guitarra e vinho. Havia cantigas. Havia a marcha de braço dado, toques de pele e trocas de olhares. Havia pão e bolos e limonada... e pirulitos com bola !

Sardinhas, só mais tarde.

Havia amizade e bailarico até os pés não poderem mais sustentar tanta folia.

O Carvoeiro é agora uma oficina fechada. No largo, os moradores só se conhecem do bom dia, boa tarde.
Será que sabem o que é um trono de Santo António ?
E uma fogueira comunitária ?

Passei lá o mês passado. Ainda ecoavam os risos daquela noite em que a Vizinha Custódia calculou mal o salto e o fogo, matreiro que só ele, ferrou-se-lhe à combinação de renda estreada para a ocasião, e lambiscou-lhe metade, sem que ela desse por isso.