sábado, 21 de outubro de 2017

Nunca mais











indignação não morreu ali, nem morrerá enquanto nada for feito para que Nunca Mais. 
É fácil ser comentador de sofá. Se todos fizermos nada mais do que vociferar contra tudo e todos no conforto das nossas pantufas , de muito nos há-de valer toda a indignação. 
Hoje não fomos muitos, mas fomos lá. 
Amanhã se preciso for, seremos muitos mais e estaremos lá outra vez. Em silêncio. Deixando que as vozes dos que se foram falem maus alto. 

Para que Nunca Mais


https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=1602661976444339&id=100001016574827


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Haloweentown


"Boys and girls of every age

Wouldn't you like to see something strange

Come with us and you will see,

This our town of Halloween"







Anunciava o letreiro ardente à entrada do recreio do terror.
Nunca tinha visto tanta gente .
Filas imensas de rostos expectantes aguardavam, vestidos com o rigor que se impunha ao local. Assistentes disformes entregavam óculos de VR, indicando que ficariam activos assim que o circuito se aproximasse da zona principal, "Ashes to Ashes and only dust" onde poderiam reviver o período negro mais intenso, o daqueles três meses em que os saídos do lixo caíram no pó da amálgama carbonizada de terras e gentes, pulverizada no flagelo criminoso do fogo perene, que transformou uma poética mancha verde nesta hollywoodesca  Halloweentown.

Chegados à primeira atracção, os bustos fantasmagóricos de assustados  Lapierre e Collins convidam a entrar em "O País já está a arder"? e com uma risada arrepiante, o audioguide ganha vida e começa a narrar os acontecimentos daqueles três meses em que a tinta correu a rodos como se  sangue fosse e pedisse, implorasse que não se calassem as vozes  e se procurassem explicações, negligências, culpas, culpados ...
"Liar, Liar" faíscava um eucalipto enquanto se reacendia em chamas uma e outra vez.

O ar era irrespirável, asfixiante. O calor era insuportável, patrocinado pelas novas tecnologias da GALP. Era quase real, quase...
Saí. Tive que sair. O asco venceu a curiosidade. Não fui a única. Centenas mais, não suportaram reviver o macabro, o horror, o terror, a inépcia, a inutilidade, a inacção.
A realidade deve ter superado mil ficções de exploradores de holocaustos. 

Cheguei a casa e debaixo de uma água escaldante, tentei em vão arrancar de mim aquela camada de abandono que se me incrustara  na pele desde o dia em que deixei de querer saber... old news..

Liguei a TV fiz zapping até achar o que realmente interessava: a discussão parlamentar sobre a lei que permite levar os Lulus às compras e a jantar fora. Isso sim,  é de valor.

Neste momento em que escrevo estamos a aproximar-nos a passos largos da centena de contribuidores para a pira fúnebre, the one and only fiery Brand of Halloweentown.





segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Rage against the machine


É triste pensar que a natureza fala e que o género humano não a ouve.

Victor Hugo




Nunca gostei de touradas. Nunca consegui perceber a exultação de ferir um animal para gáudio de milhares que urram à vista do sangue a jorrar de muitas bandarilhas e olés . Sol e sombra, dia e noite, inteligente ou estúpido, é primitivo, selvagem e indigno.


Um animal assustado e ferido de morte, avança às cegas e leva consigo, imparável , tudo o que se interpuser no caminho desvairado que inevitavelmente o arrastará até onde o fim do sofrimento e o seu próprio fim serão um só.

A raça dominante, já pouco domina. 
Como um animal ferido, a Natureza reage em desespero e arrasa, queima, afoga , esmaga, extermina...
É verdade que sempre existiram chuvas torrenciais, avalanches, fogos, inundações, aluimentos de terras, furacões, ciclones, terramotos, tsunamis... não tenho ideia de tanto desastre natural junto em tão pouco tempo.

Os homens verborreiam, atacam-se, discutem... política, terror, guerra. Até matam e morrem por preferências clubisticas que seguramente levantarão enormes questões existenciais...

Nada disto importa realmente se não tivermos verdadeiramente algo precioso sobre o que discutir, decidir e agir , e que é o pedaço de chão que a Natureza nos emprestou para usarmos na nossa passagem por cá, e que seguramente cada um de nós gostaria que a posteridade pudesse usufruir daquela mancheia de terra , de todos os pedaços , onde deixámos impressa a nossa pegada.