segunda-feira, 15 de maio de 2017

Sonha comigo

"...You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?  
All that we see or seem
Is but a dream within a dream."


Edgar Allen Poe







Porque raio estará o gato a vomitar para dentro das sapatilhas de caminhada ? Se está mal disposto, não é seguramente ali que vai se vai aliviar de brisas frescas...

 Susto! Acordo estremunhada  e sem sombra de felinos nas imediações, mas o grito apavorado ainda ecoa no meu subconsciente que o captou e foi ampliando progressivamente, até tomar proporções gritantes de trombetas apocalípticas... seis e meia da manhã, caramba ! Salto louca da cama, não reparando que o sudário beije se enrolara sensualmente num tornozelo, e zás!  o tapete Arménio subiu que nem um foguete de encontro à minha cara meia dormente de sono.


Não sei quanto tempo demorei a sentar-me e a perceber-me... uns eternos 10 segundos, talvez mais.
Consegui muito a custo sair do quarto esperando a todo o momento dar de caras com um encapuçado negro de segadora na mão...


Abre, solta-me, abre , liberta-me, gritava em plenos pulmões uma figura de mulher farta, desgrenhada, enlouquecida, transfigurada e ao mesmo tempo estranhamente familiar, que encerrava por entre os dedos crispados de um punho cerrado, um cadeado escuro e ferrugento.


Olhou suplicante para mim. Chorava. Abre, liberta-me, falava entrecortada e ofegantemente sem largar a tranqueta pardacenta ... por favor, abre. Olha para mim, disse-lhe, olha. Reconheci imediatamente aquele olhar que conheço desde que nasci, calmo e sonhador, jovial e decidido, mas tão transtornado por um medo, uma ansia que lhe parecia toldar a razão.
 Escuta, dá cá o cadeado, dá-mo! Põe-no aqui na minha mão, vá . Vês ? Não precisas de qualquer chave nem sequer de o abrir para te libertares, mira-o bem e desmerece o facto do que ele possa ter sido. Já não é coisa alguma que te possa atemorizar; quanto muito provoca aversão,   está velho e gasto e só pode prender preconceitos, intolerâncias, incompreensões, fanatismos, facciosismos e inclemências, e tu não és dessas coisas, nunca foste. Se puxares a argola com força e a firme convicção de que és livre , vais ver que rebentas com qualquer réstia que ainda se lhe prenda. Experimenta.
 A vontade e a força partiram a tranqueta pelo gonzo deixando no ar um cheiro acre a vilanagem e  ferrugem. Vi os  humores iluminarem os olhos assustados, a cor voltar ao rosto e afivelar-se aquele meio sorriso que lhe desanuvia o cenho e desenha um arco de calma e  ponderação.

Deixei-me sentada no sofá, tranquila, a tomar uma tisana quente, enquanto afagava o pelo sedoso da gata que ronronava a cada passagem da mão. Sorri. Voltei para o aconchego , deitei-me e adormeci contente.
Sonhei que estava a dormir, deitada num pião gigante que rodava sem parar.


( All fotos by MD Roque)




                     

sexta-feira, 12 de maio de 2017

De volta à vida. De volta ao Blog

Hoje amanheci igual... pensei o que pensei, fiz igual ao que foi feito. Experimentei o  déjà vu e re - postei um escrito.
Três anos e pouco depois, não mudei quase nada nesta imensa mudança que sofri...

"O difícil não é imitar a grandeza com a desmesura. O difícil é que a alma não seja anã."- Vergílio Ferreira



Toda a Sociedade Está dentro de Mim



Fazer qualquer coisa ao contrário do que todos fazem é quase 
tão mau como fazer qualquer coisa porque todos a fazem. Mostra uma igual preocupação com os outros,
 uma igual consulta da opinião deles - característica certa da inferioridade absoluta.
 Abomino por isso a gente  que se preocupa com seres imorais ou infames,
 e com o impingir paradoxos e opiniões delirantes. 
Nenhum homem superior desce até dar à opinião alheia tal importância que se preocupe em contradizê-la.
...


(Fernando Pessoa)









Só se ouviam os meus passos na pedra preta do basalto da viela, sem passeios a contrastar, estreita e claustrofóbica, cortada por entre prédios atarracados e velhos  como se de uma cicatriz se tratasse. Sorri à ideia do caminho para a livraria do portão escuro, enegrecido pelo tempo, onde se guardavam memórias por dentre folhas esquecidas e amarelecidas pelo tempo, necrópole de autores consagrados e de outros não tão conhecidos, mas cuja magia osmótica contagia e se apodera de quem a absorve. Um candeeiro acendeu a sua luz fraca e trémula que anunciava o crepúsculo, arauto da noite. Olhei o número num azulejo escuro e gasto incrustado na parede. Era ali.

Ali, naquela porta verde e baixa, não se guardavam livros. 
Entrei para a sala iluminada por quebra-luzes de vitral, garridos e sujos de pó que espalhavam um caleidoscópio de cores desmaiadas pelos cabides e cruzetas que cobriam  paredes de cor indefinida.
"Vidas em Segunda Mão" - dizia o letreiro sobre a porta, para quem sabia o que procurava; era uma placa ferrugenta, imperceptível e gasta pela erosão das vidas que entravam e saiam, das que ficam e das outras que iam experimentar a mudança.
Entrei e a miúda ao canto junto à registadora, não levantou os olhos do telemóvel onde os polegares batiam ágil e velozmente, nem sequer respondeu  à minha saudação, limitando-se a dizer "Esteja à vontade"... seguramente não estava preocupada que eu lhe roubasse uma vida usada.

Havia-as para todos os gostos. Levei 3 para o provador.

Experimentei a de estrela de cinema. Era tamanho único e estava muito apertada. Apesar de ser maravilhosa, estava esfiapada por dentro e cheia de manchas de vícios mil. Não se podia alargar pelas costuras... já tinha sido escortanhada até ao impossível. Despi-a com pena, deixei-a do avesso com o glamour a assomar por dentre os alinhavos dos remendos... não era para mim.

Experimentei a de político. Assentava-me que nem uma luva, mas convenhamos que aquela espécie de lycra se molda a qualquer corpo com vontade de a envergar. Fedia. O cheiro era tão intenso e nauseabundo que seria necessário um estômago forte e falta de sentidos para a poder vestir. À segunda contracção do bucho, despi-a. Foi como me estivesse a esfolar viva; aquela vida apegara-se-me tão intensamente que a tarefa de a conseguir tirar por completo e mais ao nojo que a assistia me agastou anos à minha própria vida... não era para mim.

Experimentei a de aventureiro e atleta saudável. Esta havia-a em diversos tamanhos porque a vontade de começar é grande e o início auspicioso, mas com o passar do tempo , quase todos a trocam pela vida sedentária, familiar, bem nutrida e  mal regrada ... a única esgotada no escaparate.
Saltos de para-quedas não,  que tenho vertigens e me falta o ar. Mergulhar em apeneia não,  que tenho claustrofobia e me falta o ar. Comer alface não, que sou uma barulhenta pertinaz, mas não sou grilo... e apesar de impregnada com o maravilhoso e inebriante cheiro do ar puro , tive que a despir... não era para mim.

Saí cabisbaixa dos provadores e olhei melhor para as vidas em exposição : as melhores, nem eram de marca, não passavam de tristes imitações baratas, as outras, coitadas, estavam puídas pelos usos e  desusos.
Sorri para comigo e pensei que mudar de vida , afinal  não é assim tão fácil. Nem é tampouco importante. A minha vida não é nova, nem de marca, mas é boa. Só precisa de uns pequenos ajustes aqui e ali e talvez dure ainda mais uns aninhos, ou quem sabe, seja muito mais resistente do que parece e me acompanhe até ao fim.


                                         

domingo, 30 de abril de 2017

Citius altius fortius


"O homem descobre-se quando se mede com um obstáculo."

Antoine de Saint-Exupéry






Na verdade, Citius altius fortius é o lema de vida de todos nós, porque afinal o que é a vida senão um constante superar de etapas e obstáculos do princípio ao fim ?
Qualquer existência humana passa seguramente pela selecção natural, desde o gâmeta que origina o Citius altius fortius que fecunda o óvulo. Onde há vida há superação, há conquista, há concretização.



Quando pensas em ti como alguém que é e será, mas que principalmente já foi e te deprime a intolerância e desprezo com que a matéria trata o engenho, dás por ti a propor-te novos desafios. E grandes. E complicados. Pelo menos para ti , que sempre agiste na sequência de um planeamento cuidadoso.



E vais. Rasgas-te , gritas, invectivas, vociferas, mas não paras. Estás por tua conta. Foi tua a escolha de te testar, de te provar que sim, que és tu e és capaz, e que as limitações estão no engenho que tem que se fazer obedecer.



É fabulosa a recompensa. É imensa a sensação de realização que te invade. É gratificante encontrares alguém que desconhecias e que afinal és tu.


Grita o teu nome deixa que os flocos de neve esfiapada componham uma marcha imperceptível em tua honra.













Rejubila

( Todas as fotos : MDRoque)